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terça-feira, dezembro 23

Parole
Saiu em um dos cadernos semanais da Folha, não lembro se no "Sinapse" ou no "Mais". Acho que foi no primeiro. Um artigo, agora não lembro de quem, alertando sobre os perigos da leitura excessiva. O texto dizia que ler demais pode bitolar. Faz sentido. O sujeito cita dois filósofos, um deles Nietzsche, que defendiam a mesma tese - o Bigode até falava que abrir um livro logo de manhã era um absurdo, uma violência. Entre outros argumentos, estava o de que quem lê demais acaba perdendo a capacidade e a vontade de pensar por si mesmo, de tanto que acumula o que os outros escrevem. "...exemplos de pessoas inteligentes, promissoras que, de tanto lerem, se tornaram eruditos estúpidos", era mais ou menos o que dizia um trecho. Aqui eu deveria emitir uma opinião própria sobre o assunto, mas não consigo. Não que eu leia tanto, mas será que o troço já começou a fazer efeito em mim?
To die, alone, in the rain
Domingo saí sozinho pra balada. Cidade esvaziada é isso, sem ter com quem combinar a noite. Renatão, legítimo nativo, não consegui encontrar. Ontem ele tava sempre dez minutos na minha frente. Percorremos os mesmos caminhos, a cada ponto eu tinha notícias da passagem dele, mas não alcancei. Típico de filme de faroeste.

Caía uma garoa simpática, que não espantou o público das 9h no Valentino. Casa cheia, gente local (Londrina para os londrinenses), tinha pessoas sortidas: delegado Belinati, jornalistas da geração 80, repórter da Globo, Valkir e só um ou outro tipinho típico de época de ano letivo. O coitado tava completamente deslocado, no meio daquele povo atípico; segurava a garrafa de Skol na mão e não sabia onde colocar. Todo mundo pra ouvir o Búfalos d'Água, som muito elogiado e aplaudido pelo público. Mas eu não achei tanta coisa assim - nostálgicos? Toda vez que eu ouço esse tipo de som ao vivo, principalmente lá, me dá vontade de ir castigar um pouco o aço da minha guitarra cor de ovo.

Enfim, duas Ypiocas durante o show e saí pra refrescar. Trancaram a porta. Desencanei e subi pro Jota, ainda debaixo da chuva fina. Pela primeira vez fiquei por lá sozinho, encostado no balcão, do lado de um daqueles bêbados contumazes. Eu ainda tava terminando a pinga do Valentino. Meio melancólico ficar conversando com o dono do bar - um pouco por falta de opção, mas um pouco também por causa do espírito da noite. Conversa sobre bebidas, que outro assunto nos unia? Fiquei surpreso pelo Joaquim não saber o que era daiquiri. Estou lendo um romance, um daquela coleção da Folha, em que o personagem toma daiquiri toda manhã. "Pra barman sou uma negação", o Joaquim se desculpou, enquanto abria o freezer. Tomei uma dose por ali, mais por cosideração, e um amendoim com casca.

Não tinha passado nem meia hora e parti de volta pra baixo. E foi só me decidir que a água engrossou. Mas daí não tinha mais vontade de esperar, saí correndo na chuva, fiquei encharcado. Fiz escala técinica no Mangá - e não tinha toalha no banheiro. Me sacudi feito cachorro molhado, pra espantar um pouco da água, e segui a rota. O show já tinha terminado, mas o segurança resolveu, naquele dia, que só entrava quando ele quisesse. "Tá muito cheio". E ficamos eu e uns manos ali na frente, esperando o cara liberar. "Embaçado".

Tava cheio mesmo, principalmente prum domingo de chuva durante as férias. Depois vieram a quarta e a quinta doses. E até consegui trocar várias palavras com uns conhecidos. Copa de 82, George Harisson, sujeito estranho, jornalismo, novos paradigmas, além, claro, do óbvio. Assuntos que iam surgindo com a língua solta. Deu três horas e resolvi andar, fui pra fora, peguei o carro e vim pra casa, dormir.

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