<$BlogRSDUrl$>

terça-feira, fevereiro 22

Poesia nunca mais
Se não existissem poemas imagina quanto papel teria sido economizado no mundo. Imagina quantas árvores teriam sido poupadas. Gente apaixonada escreve poema pra cacete, textos em verso e poemas em prosa - noite e dia, principalmente à noite. E é gente prolixa. Agora imagina quanto das florestas foi derrubado pra que esse pessoal pudesse aliviar o platonismo em poesias baratas. Pelo menos 23% de todo o papel branco ou pautado do mundo foram preenchidos com versos de apaixonados. Uma parte fica na gaveta pra que a gente possa se envergonhar mais tarde. Mas a maioria vira lixo. Um puta problema ambiental. O protocolo de Kyoto tá na direção errada. Deviam era proibir o lirismo.

segunda-feira, outubro 11

Vingança é um prato que se come de quatro
Memória olfativa - é mais forte que a visual. Os cheiros transportam a gente pro lugar onde sentiu aquilo da última vez, ou pra ocasião mais forte. E a memória de sons, principalmente a das músicas. Enganadora, enganadora. A gente tem saudades do que não aconteceu; alma traiçoeira, pega dois acordes maiores, dois menores e um dissonante (será essa dissonância que distorce a realidade?), pega um punhado de acordes e cria o ideal. Mas a primeira maior crueldade é. primeira crueldade: a pessoa não existe de verdade (não?!); objeto de afeto, idealização retro-passional, desejo masturbatório. Tudo isso ("e muito mais você encontra na...") ? A segunda crueldada é. segunda crueldade, maior: alma cretina, projeta o modelo numa real. É, de carnes e osso. 3) crueldade própria, inerente. minha: vontade inconfessável de trancafiar o teu afeto. Não! O meu afeto por você. Martela, martela, martela - por quê? ("tudo consta do Manual Geral de Auto-Ajuda, compêndio, págs. 26 e 27"). Punição e prazer (ou vide-o-verso), mutilação clitorial(ana) - não, não, não. Nunca, ninguém desveste a vestal (não a minha). "Cria a realidade possível ou desenvolve uma paranóia doentia... Ciúmes (tom de suspense)". STOP, clic do mouse no Media Player. Teu cal dissolve na água. Não toma como pessoal, só tô matando o seu clone.Na verdade não é seu, é meu! EU criei! - te usei de modelo, sim - mas EU criei, dei vida e qualidades. Não botei defeitos, entendeu agora? Eu não.

quinta-feira, junho 24

Sh!
O silêncio me criou desde cedo, me ensinou a ser invisível e a escutar músicas. Disse que as palavras não eram importantes e eu acreditei. Nunca me acostumei a falar. Comecei a tentar escrever depois dos vinte e poucos, meio que forçado. Ainda não consigo escrever manuscrito direito. A comunicação nunca fez muito sentido pra mim, e me exige um enorme esforço até hoje. Acho que por isso sempre preferi a madrugada; não essas outras madrugadas, até mais barulhentas do que o dia. Essa madrugada. Mas melhorei muito, é verdade. Quando era adolescente, escutava Chopin, sozinho, numa sala escura. De madrugada. Não ri, coitado do garoto; que, além de tudo, era melancólico e nem sabia disso - pra pelo menos faturar alguma com a pose. Mas o meu silêncio não era solitário, eu tinha, lembrando agora, prazer com isso, com essas madrugadas. Mas, socialmente, era praticamente um bicho. Podia ter me tornado um bicho-do-mato completo, um recluso, um "misantropo", hein? Mas decidi procurar a luz. Ainda não encontrei, o sol e o dia ainda me incomodam. Mas já descobri uma porção de coisas interessantes que compensaram a iniciativa. Mesmo assim, uma porção de coisas ainda não fazem sentido pra mim. Engraçado, mas durante o dia (se tomado o "dia" como a vida social) eu ainda continuo tateando no escuro. Experimentando pra ver o que dá certo e o que não dá. Por isso, acho, a minha falta de tato em algumas situações.

sexta-feira, janeiro 2

“Não namoras comigo, então mato-te!”
esta matéria de um jornal português

Uma a-u-l-a de jornalismo. Texto caótico, cômico sem querer, e quem lê só vai ficar sabendo mesmo o que aconteceu nos últimos parágrafos. E a história é boa. Entropia.

terça-feira, dezembro 23

Parole
Saiu em um dos cadernos semanais da Folha, não lembro se no "Sinapse" ou no "Mais". Acho que foi no primeiro. Um artigo, agora não lembro de quem, alertando sobre os perigos da leitura excessiva. O texto dizia que ler demais pode bitolar. Faz sentido. O sujeito cita dois filósofos, um deles Nietzsche, que defendiam a mesma tese - o Bigode até falava que abrir um livro logo de manhã era um absurdo, uma violência. Entre outros argumentos, estava o de que quem lê demais acaba perdendo a capacidade e a vontade de pensar por si mesmo, de tanto que acumula o que os outros escrevem. "...exemplos de pessoas inteligentes, promissoras que, de tanto lerem, se tornaram eruditos estúpidos", era mais ou menos o que dizia um trecho. Aqui eu deveria emitir uma opinião própria sobre o assunto, mas não consigo. Não que eu leia tanto, mas será que o troço já começou a fazer efeito em mim?
To die, alone, in the rain
Domingo saí sozinho pra balada. Cidade esvaziada é isso, sem ter com quem combinar a noite. Renatão, legítimo nativo, não consegui encontrar. Ontem ele tava sempre dez minutos na minha frente. Percorremos os mesmos caminhos, a cada ponto eu tinha notícias da passagem dele, mas não alcancei. Típico de filme de faroeste.

Caía uma garoa simpática, que não espantou o público das 9h no Valentino. Casa cheia, gente local (Londrina para os londrinenses), tinha pessoas sortidas: delegado Belinati, jornalistas da geração 80, repórter da Globo, Valkir e só um ou outro tipinho típico de época de ano letivo. O coitado tava completamente deslocado, no meio daquele povo atípico; segurava a garrafa de Skol na mão e não sabia onde colocar. Todo mundo pra ouvir o Búfalos d'Água, som muito elogiado e aplaudido pelo público. Mas eu não achei tanta coisa assim - nostálgicos? Toda vez que eu ouço esse tipo de som ao vivo, principalmente lá, me dá vontade de ir castigar um pouco o aço da minha guitarra cor de ovo.

Enfim, duas Ypiocas durante o show e saí pra refrescar. Trancaram a porta. Desencanei e subi pro Jota, ainda debaixo da chuva fina. Pela primeira vez fiquei por lá sozinho, encostado no balcão, do lado de um daqueles bêbados contumazes. Eu ainda tava terminando a pinga do Valentino. Meio melancólico ficar conversando com o dono do bar - um pouco por falta de opção, mas um pouco também por causa do espírito da noite. Conversa sobre bebidas, que outro assunto nos unia? Fiquei surpreso pelo Joaquim não saber o que era daiquiri. Estou lendo um romance, um daquela coleção da Folha, em que o personagem toma daiquiri toda manhã. "Pra barman sou uma negação", o Joaquim se desculpou, enquanto abria o freezer. Tomei uma dose por ali, mais por cosideração, e um amendoim com casca.

Não tinha passado nem meia hora e parti de volta pra baixo. E foi só me decidir que a água engrossou. Mas daí não tinha mais vontade de esperar, saí correndo na chuva, fiquei encharcado. Fiz escala técinica no Mangá - e não tinha toalha no banheiro. Me sacudi feito cachorro molhado, pra espantar um pouco da água, e segui a rota. O show já tinha terminado, mas o segurança resolveu, naquele dia, que só entrava quando ele quisesse. "Tá muito cheio". E ficamos eu e uns manos ali na frente, esperando o cara liberar. "Embaçado".

Tava cheio mesmo, principalmente prum domingo de chuva durante as férias. Depois vieram a quarta e a quinta doses. E até consegui trocar várias palavras com uns conhecidos. Copa de 82, George Harisson, sujeito estranho, jornalismo, novos paradigmas, além, claro, do óbvio. Assuntos que iam surgindo com a língua solta. Deu três horas e resolvi andar, fui pra fora, peguei o carro e vim pra casa, dormir.

quarta-feira, maio 21

Censo e senso
Tem certas coisas monótonas que eu posso ficar fazendo durante um tempão. Por horas e horas, sem parar e sem me chatear. Muitos desses gostos só fui adquirir depois de uma certa idade. Mas tem outros que me interessam desde pequeno, como ficar fazendo estatística de qualquer coisa. Eu passava tardes, noites (e às vezes madrugadas) contando, por exemplo, meus quadrinhos (tinha centenas), meus jogadores de futebol de botão... E depois tabulava tudo, criava categorias e dividia por vários critérios. Pra então tirar uma estatística qualquer. Quando eu aprendi a mexer com o banco de dados do primeiro computador (o saudoso CP-500, duzentos e poucos Kbites de memória) passei os números pra máquina e "criei" programas que faziam as estatísticas sozinhos. Enfim, brincadeiras autistas.

Hoje em dia não brinco mais disso, aprendi a me socializar um pouco melhor (um pouco) e passei a apreciar atividades que envolvem mais de uma pessoa. Mas volta e meia volto atrás e fico horas e horas fazendo alguma coisa repetitiva e (teoricamente) monótona - nem sempre o que é monótono é entediante. E percebo que ainda gosto. Eu nunca seria matemático, apesar de gostar da matéria, nem tentaria um concurso no IBGE, mas fazer estatísticas, noto, ainda me faz bem ("prazeres estranhos, fetiches mórbidos").

segunda-feira, abril 28

O princípio do blog é a conversa. Um papo entre quem posta e quem lê. Fica entre a conversa ao vivo ou por telefone (que o pessoal chamaria hoje de 'tempo real') e a troca de cartas, situação em que uma resposta pode demorar dias ou semanas para chegar. Quem escreve em blog pretende ser lido, caso contrário escreveria em diário de papel, folha de sulfite, documento do Word, qualquer coisa. Por isso a resposta é tão importante, mesmo que muita gente faça gênero, dê pinta de ranzinza e destrate ou finja desprezar quem deixa comentários. Jogo de cena. Mesmo quem escreve blogs pra si mesmo, sem ter notícia de leitor algum, imagina que alguém possa bisbilhotar de vez em quando, um leitor oculto. Porque, no mínimo, existe essa possibilidade.
Insônia ou senvergonhice? Acordado a essa hora, quase duas da manhã, tendo que estar de pé às sete e meia. Prefiro achar que é insônia. Outras pessoas devem ficar com a alternativa 'b'. Já recebi conselhos de desligar o computador: "isso te deixa com a cabeça a mil por hora". Exagero, claro. Mas faz sentido. Aliás, quem perguntou? Alguém está interessado em saber que no Brasil existem 3 milhões de estudantes universitários? Dois terços em faculdades privadas e dois terços nas públicas. Acho queu nunca vou aprender a escrever em blogs. Isso exige uma franqueza que não tenho. Será que Guimarães Rosa teria um blog? Não no final da vida, claro, mas na juventude. Se bem que ele começou a escrever tarde, não foi muito precoce. O Veríssimo também (filho), se bem que não há comparação; são duas coisas completamente diferentes.

O Veríssimo disse em uma palestra aqui em Londrina que não considera que seu trabalho seja literatura: "O que eu faço é entretenimento". De certo modo concordo com ele. Por outro lado não. Seus textos têm um quê de passageiros, fugazes, mas pode ser que muita coisa fique. Suas crônicas têm algo de universal, de atemporal, lidam sim com "aspectos abjetos da natureza humana" (como escrever isso sem áspas?).

This page is powered by Blogger. Isn't yours?